Investigadora da dificuldade de ser

Fotografia de Alípio Padilha (de Exercícios para joelhos fortes de Andreas Flourakis)

Há um livro do Jean Cocteau ao qual regresso frequentemente. Chama-se A dificuldade de ser. Trata-se de um conjunto de textos curtos que traçam uma espécie de auto-retrato íntimo. Um dos capítulos, que dá o título ao livro, foi cunhado pelo escritor francês Fontenelle, quando a um mês de se tornar centenário, já em leito de morte, ao ser interrogado pelo médico sobre como se sentia, terá respondido: “Sinto uma dificuldade de ser.” Também dou por mim “sempre a fugir de qualquer coisa, a cominho de qualquer coisa. Intrépida e estúpida, precisava de tomar um partido. Isso limita a dificuldade de ser por nada existir para os que abraçam uma causa, além dessa causa. Mas todas as causas me solicitam. Não quis privar-me de nenhuma. Quis deslizar entre todas. Pois bem, avança intrépida e estúpida. Arrisca-te a ser até ao fim.” E não tenho outra saída (as letras em bold correspondem ao género masculino no livro do Cocteau).

DE DIFICULDADE EM DIFICULDADE EM DIFICULDADE

We’ll allways have Kafka. Prefiro Kafka a Paris. Prefiro Kafka a Casablanca. Volto sempre a Kafka. Longe vão tempos da tragédia grega onde o ser humano se revoltava contra os deuses. Os deuses da tragédia grega já não querem nada connosco. A tragédia humana passou a ser o confronto com a ilógica e absurda máquina do estado e os seus complicados e desesperantes labirintos da burocracia (e agora com a estratosfera digital que nos coloca todos na “nuvem”). Há um conto do Kafka que desde a adolescência me marcou profundamente. Chama-se “Um artista da fome”. Quando o li pela primeira vez, não me imaginava sequer a seguir a profissão de artista e o Kafka bem avisou que esta é uma forma de vida muito difícil. Há anos que pensava fazer uma adaptação deste conto para teatro e na altura da troika, foi quando se tornou óbvio de que teria de a fazer. Só me meto a encenar quando uma ideia não me sai da cabeça (um tique de artista da fome que tenho de vigiar e que necessita de acompanhamento médico). Assim nasceu A ARTE DA FOME, que incluiu mais dois contos de Kafka sobre a condição de ser artista. No entanto, não consegui obter o financiamento para que o espectáculo pudesse estrear nessa altura (também sou artista da fome mas não ao ponto de fazer o meu trabalho sem ser paga), tendo estreado já em período pós-troika no Teatro São Luiz em Lisboa. A propósito da minha incursão kafkiana fui recentemente convidada para uma conversa inserida nas comemorações do centenário da morte de Franz Kafka, organizada pelo Goethe Institut:

KAFKA, UM CLOWN TRISTE, é o título que dá o mote à conversa, com Nuno Artur Silva, Carla Bolito e Filipa Melo (organizadora e moderadora do ciclo de debates sobre Kafaka). Dia 14 de Março às 19h no Goethe Institut.

https://abrir.link/UXkfp

A segunda conversa do ciclo “Franz Kafka: Bilhete de Identidade” juntou na biblioteca do Goethe-Institut em Lisboa a atriz Carla Bolito e o humorista Nuno Artur Silva para refletirem, com a moderação da crítica literária e jornalista Filipa Melo, sobre a forma como o humor influencia a obra e a biografia kafkianas. 📙 As celebrações do Ano de Kafka 2024 continuam ao longo dos próximos meses, com paragens em Porto e Braga, antes de regressarem a Lisboa para mais duas conversas no outono.
Quem quiser mergulhar de forma mais profunda no mundo de Kafka, encontra no site do projeto #BeingKafka muitos artigos que mostram diversas facetas da vida e da obra deste autor: https://www.goethe.de/ins/pt/pt/kul/sup/kaf.html
É sempre reconfortante estar com apreciadores de Kafka. Foi como se estivesse com uma família não-biológica-literária a falar dos nossos “parentes” que são Joseph K. ou Gregor Samsa, um artista da fome ou o trapezista de Primeiro Sofrimento. Bela tarde de troca de “cromos” do avô Kafka!

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