
Há um livro do Jean Cocteau ao qual regresso frequentemente. Chama-se A dificuldade de ser. Trata-se de um conjunto de textos curtos que traçam uma espécie de auto-retrato íntimo. Um dos capítulos, que dá o título ao livro, foi cunhado pelo escritor francês Fontenelle, quando a um mês de se tornar centenário, já em leito de morte, ao ser interrogado pelo médico sobre como se sentia, terá respondido: “Sinto uma dificuldade de ser.” Também dou por mim “sempre a fugir de qualquer coisa, a cominho de qualquer coisa. Intrépida e estúpida, precisava de tomar um partido. Isso limita a dificuldade de ser por nada existir para os que abraçam uma causa, além dessa causa. Mas todas as causas me solicitam. Não quis privar-me de nenhuma. Quis deslizar entre todas. Pois bem, avança intrépida e estúpida. Arrisca-te a ser até ao fim.” E não tenho outra saída (as letras em bold correspondem ao género masculino no livro do Cocteau).
DE DIFICULDADE EM DIFICULDADE EM DIFICULDADE
We’ll allways have Kafka. Prefiro Kafka a Paris. Prefiro Kafka a Casablanca. Volto sempre a Kafka. Longe vão tempos da tragédia grega onde o ser humano se revoltava contra os deuses. Os deuses da tragédia grega já não querem nada connosco. A tragédia humana passou a ser o confronto com a ilógica e absurda máquina do estado e os seus complicados e desesperantes labirintos da burocracia (e agora com a estratosfera digital que nos coloca todos na “nuvem”). Há um conto do Kafka que desde a adolescência me marcou profundamente. Chama-se “Um artista da fome”. Quando o li pela primeira vez, não me imaginava sequer a seguir a profissão de artista e o Kafka bem avisou que esta é uma forma de vida muito difícil. Há anos que pensava fazer uma adaptação deste conto para teatro e na altura da troika, foi quando se tornou óbvio de que teria de a fazer. Só me meto a encenar quando uma ideia não me sai da cabeça (um tique de artista da fome que tenho de vigiar e que necessita de acompanhamento médico). Assim nasceu A ARTE DA FOME, que incluiu mais dois contos de Kafka sobre a condição de ser artista. No entanto, não consegui obter o financiamento para que o espectáculo pudesse estrear nessa altura (também sou artista da fome mas não ao ponto de fazer o meu trabalho sem ser paga), tendo estreado já em período pós-troika no Teatro São Luiz em Lisboa. A propósito da minha incursão kafkiana fui recentemente convidada para uma conversa inserida nas comemorações do centenário da morte de Franz Kafka, organizada pelo Goethe Institut:
KAFKA, UM CLOWN TRISTE, é o título que dá o mote à conversa, com Nuno Artur Silva, Carla Bolito e Filipa Melo (organizadora e moderadora do ciclo de debates sobre Kafaka). Dia 14 de Março às 19h no Goethe Institut.


As celebrações do Ano de Kafka 2024 continuam ao longo dos próximos meses, com paragens em Porto e Braga, antes de regressarem a Lisboa para mais duas conversas no outono.Quem quiser mergulhar de forma mais profunda no mundo de Kafka, encontra no site do projeto #BeingKafka muitos artigos que mostram diversas facetas da vida e da obra deste autor: https://www.goethe.de/ins/pt/pt/kul/sup/kaf.html
