Mulher dos 107 instrumentos

Quantas sou?

A multi-tarefa ou o termo mais empregado multi-task, que soa a uma especialização tirada na Finlândia ou na Suécia, faz parte do meu trabalho. Já tentei aprender malabarismo e até comprei umas bolas coloridas específicas para treinar o seu lançamento ao ar, mas nunca consegui ultrapassar os 5 segundos até as deixar cair. No entanto, domino o malabarismo do multitasking: posso fazer uma locução de manhã num estúdio onde mal cabe um coelho quanto mais uma Alice; a seguir atiro-me para um ensaio que na realidade é onde está a minha cabeça o tempo todo; ainda faço um sprint para chegar a horas ao curso de teatro com um grupo de teatro universitário e não é que ainda poderá restar tempo para participar numa sessão de poesia dos Poetas do Povo? Já fiquei cansada só de escrever isto tudo. Preferia não fazer, como diz Bartleby, essa frase revolucionária que é em si uma forma radical de luta. Mas vivo do meu trabalho. Não tenho outra fonte de rendimento. Procuro então dar sempre o melhor de mim como uma forma radical de luta.

Mais instrumentos, mais possibilidades

Inesperadamente, durante a pandemia foi quando realizei a minha primeira incursão cine-teatral: A MULHER AZUL, uma espécie de diário sobre o isolamento durante a pandemia. Nessa altura surgiram vários programas de criação de conteúdos como alternativas à forma presencial que se tinha tornado interdita. Os teatros fecharam. Os ensaios foram interrompidos, adiados ou cancelados. Só as gravações de séries, filmes e telenovelas continuaram mas com testes diários e com interrupções constantes. Os teatros fecharam mas as igrejas não. Porquê? Ambos são locais de fé. Recorri a um programa da RTP Palco online que disponibiliza na sua plataforma uma vasta opção de “objectos” teatrais concebidos para o formato digital. Assim nasceu A MULHER AZUL, o que contribui largamente para o aumento da minha fasquia de multi-task mas com uma equivalência quase nula na subida da fasquia da minha conta no bancária. Peguei nas bolas coloridas e atirei-as ao ar: escrevi o texto, fiz o storyboard, fiz a música, a produção, o catering, tratei das autorizações junto dos autores cujas obras protagonizam este vídeo e last but not the least, ainda tive tempo para representar. Quando se pratica o multi-task, a profissão principal passa para o último lugar. Só não fiz a realização porque convidei o amigo de longa data João Pinto para essa missão e o João Serralha para a direcção de fotografia. Mas creio que brevemente também irei “tocar esse instrumento”.

https://www.rtp.pt/play/palco/p11382/e669813/a-mulher-azul

Storyboard d’ A MULHER AZUL

TRILOGIA DAS CORES PRIMÁRIAS – Depois d’A MULHER AZUL ficou a “aboborar” a ideia de desenvolver peças-poemas-cine-teatrais. Talvez movida pela grande admiração pela Agnés Varda que cria os seus filmes como uma espécie de diário, como uma extensão de si própria, mesmo que os protagonistas sejam outras pessoas ou outras realidades muito diferentes da sua e que se transformam sempre em gestos de amor. Após a estreia do espectáculo VERMELHO É A COR DO MEU LUTO, apercebi-me que ando a perseguir cores. As cores aqui representam estados de suspensão: a suspensão de contacto com o exterior, n’A MULHER AZUL; em VERMELHO É A COR DO MEU LUTO, a suspensão criada pela morte de alguém cuja existência é indissociável à nossa identidade e que na sua adaptação para poema-peça-cine-teatral sob a foma de curta-metragem, chamar-se-á: VERMELHO. O amarelo fica para o fim. Será sobre a suspensão causada por um acidente. E não andamos nós de acidente em acidente? E o que é a história senão um conjunto enorme de acidentes?

Poesia

Não escrevo poesia. Gostaria e até rima. E costuma-se dizer “se rima, é porque é verdade” mas neste caso não. Leio, para dentro, para mim. E para fora, para os outros, em voz alta. Gosto de ler em voz alta para mim e para os outros. Participei várias vezes nas épicas QUINTAS DE LEITURA no teatro de Campo Alegre no Porto, organizadas pelo grande João Gesta que põe em palco: poetas, escritores, actores, cantores, bailarinos, artistas plásticos, todos e todas à volta da poesia nas suas múltiplas e variadíssimas leituras e interpretações e sempre com um público caloroso que esgota a lotação da sala com bastante antecedência. Colaboro com regularidade nas sessões dos POETAS DO POVO e em concertos-recitais dos LISBONA POETRY ENSEMBLE. Sempre que posso, atiro-me a estas escapadelas de amor que no fundo, e mesmo sem ir até ao fundo, é o que a poesia nos provoca. Somos todas e todos bem-vindos a Elsinore porque “entre nós e as palavras, o nosso dever falar”.

Quinta de leitura com José dos Anjos, Carla Bolito, Teresa Coutinho e Jorge Mota

O MAR DE SOFIA;com: Xana, Viviane Parra, Paula Cortes e os Lisbon Poetry Ensemble

Ensaio d’ O MAR DE SOPHIA(na foto com Xana, Paula Cortes e Viviane Parra)

GENTE DIZ ALMADA, recital de comemoração dos 120 anos do nascimento de José de Almada Negreiros (foto de ensaio com João Paulo Esteves da Silva)

Lançamento da Flanzine (na foto com João Pedro Azul)

https://www.flanzine.com/

Fotografia da leitura de DIREITO À RESPOSTA no Teatro Municipal de Vila do Conde, inserido no programa da AmostR e na celebração dos 50 anos do 25 de Abril. Com: Filipe Raposo, António Jorge Gonçalves, Teresa Coutinho e Carla Bolito.

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